sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Gesualdo

A porta rangia toda vez que era aberta. Um ruído ácido e dolorido, para lembrar que, apesar do silêncio da madrugada, as orelhas ainda estavam bem presas à cabeça dos que passavam.
Mas ele estava surdo. Sabia o que estava acontecendo. Sabia o que ia encontrar atrás do rangido das dobradiças velhas. Não era uma questão de ciúme.
Eis que a dobradiça se torna música, com seu timbre alto, com seu gemido trabalhoso. E a faca e a arma de fogo saem sabe-se lá de onde (mas haviam sido guardadas sob a roupa dele premeditadamente), e as mãos, e o sangue, e os gritos. Ah, os gritos. ah os gritos...
Mas naquela hora não era só surdez. Era cegueira, era descontrole. A faca subia e descia sozinha (mas a mão que a acompanhava sabia o que estava fazendo).
E a mulher deitada em cima da cama, nua, esfaqueada. O homem vivo, veste a roupa dela, veste, desgraçado, veste antes de morrer. E depois o homem também estava deitado, ao lado da mulher, vestindo sua camisola, morto. morto.
E os servos da casa sabiam, todos sabiam, menos o bebê, que chorava, que chora até agora, que não pára de chorar, não quer parar! Ele sacode o berço com vigor. Não é dele, o choro não é dele, o choro é do homem vestido de mulher. Ele sacode, o homem chora, a voz do bebê é a voz do homem. Por fora o bebê pára de chorar, pára de respirar, mas por dentro o homem ainda chora.
O rangido da dobradiça, o grito da mulher, o choro do homem. Música.

domingo, janeiro 25, 2009

A 2ª Trindade (485, FJL)

Pai.
Diga.
Posso fazer uma pergunta?
Já fez, filho. Pode falar.
Quem é Deus?
...
É uma pergunta idiota?
Se fosse idiota, eu saberia responder.
Então deixa.
Eu sei um pouquinho. A lenda é que Deus é aquele (aquele o quê, pai?) que criou, eu, você, sua mãe, seu avô, as estrelas, enfim. Você já ouviu isso, pela cara de tédio. Seu avô entende mais do assunto, mas posso dizer com segurança que as histórias da Bíblia aconteceram de fato. Mais ou menos.
Como assim?
Eu também fui "expulso" do Paraíso, da infância, do conforto que era a presença de meu pai, seu avô. Assim como você terá que sair de casa um dia.
Mas por quê?
Porque não vamosa aguentar você para sempre. Ai! Estou brincando!
Por quê?
Você conhece a história?
Adão foi expulso porque desobedeceu Deus.
Para você ver como sou bom pai. A verdade é que descobrimos que éramos enganados: não sabíamos que estávamos nus, nem que morreríamos, nem que era preciso trabalhar e inevitável sofrer...
Mas não foi Deus que nos condenou?
Pergunte para seu avô. Eu acho que Deus queria nos proteger, na verdade. Como na história do rei nu. Tinha medo, talvez, que não O amássemos mais se descobríssemos que nos tinha feito imperfeitos.
E nos expulsou?
Ele não podia evitar nosso fim, nem nos proteger.
Mas Deus não é perfeito?...
Todo filho vê seu pai como uma figura perfeita. E quando percebe que sequer seu pai é perfeito...
Ele deixa de ser louvado?
Também. Mas acho que saimos atrás da nossa perfeição, que nossos filhos também vão questionar, como você, que está com essa cara de "não entendi".
Eu... entendo. Mas por que ter filhos estraga-prazeres?
Na Bíblia parece um pouco de vaidade divina... mas não deixe de perguntar ao seu avô, que ele entende mais do que eu.
E o que você acha?
Eu acho que, ahn, aprendemos. A perdoar o pai. A pensar, entender. E perceber que a nossa história sempre se repete, o Universo é criado várias e várias vezes.
Pai?
Diga, filho.
Nunca muda a história?
Filho, posso dizer com segurança que Deus nunca deu tanta satisfação a Adão quanto eu dei a você. Mas o fruto não cai longe.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Para os alunos de cinema

Já estava consciente há algum tempo quando me levaram ao Hospital Regional Sul. Se em hospitais particulares, limpos, organizados, a morte ainda parece vagar, no hospital público ela marcha sem discrição, inferno, se ostenta como se ainda vivesse numa cidade medieval assolada pela peste. Estava sóbrio, de qualquer forma. Havia lá uma decoração de Natal que, por motivos que já exporei, descobrir se tratar de letrinhas formando palavras anacrônicas como "esperança", "prosperidade", "saúde", etc, sobre chapas de radiografia recortadas e penduradas no teto. O efeito de ver uma caveira ou algumas vértebras junto às palavras de conforto meramente formais e vestigiais era de uma ironia e tetricidade que me invejou, devo confessar. Quase rio e racho meus coágulos. Como adiar a morte sem ajuda de Spera, que aquece as almas e as impede de parar...

segunda-feira, junho 16, 2008

Uma viagem

Minha viagem ao infinito foi, a princípio, fruto de mera curiosidade matemática. Sempre quis ver duas retas paralelas se cruzando, e sempre soube que isso ocorreria no infinito.

Sabia que o infinito fica longe. Infinitamente longe. Então peguei um lápis azul e outro vermelho, só para fazer contraste, e comecei a traçar duas retas paralelas. Fui traçando por um bom tempo. Um tempo infinito. Até que, de repente, elas se cruzaram. Pensei: “é aqui”.

Estava no infinito. Acho que é um dos lugares mais fascinantes que visitei até hoje. Olhava ao redor e via coisas que jamais teria visto em outro lugar. Além do cruzamento das retas paralelas vi, ao meu lado, uma parede, um muro escuro. Era infinitamente grande em todas as direções e infinitamente pequeno ao mesmo tempo. Havia uma plaquinha pendurada, onde lia-se “fim do espaço”. Vi também o resulatdo de um dividido por zero. Era infinito! Pelas redondezas havia uma pista de corrida. Me aproximei e qual não foi minha surpresa ao ler, numa pedra em frente ao velódromo, os dizeres “Memorial de Aquiles e a Tartaruga”. Naquele lugar, Aquiles e a Tartaruga haviam empatado. Uma lágrima brotou em meu olho esquerdo.

Fiquei preocupado pois meu trajeto fora longo e eu não havia avisado ninguém a respeito da viagem. Poderiam estar aflitos com minha ausência prolongada. Olhei no relógio. Os ponteiros rodavam loucamente, apesar de estarem parados. Foi então que me dei conta de que o fim dos tempos era lá. Não havia por que me preocupar.

De qualquer forma, julguei que era hora de voltar. Tirei uma fotografia das retas se cruzando, do Memorial, do muro, do resultado de um dividido por zero e peguei o caminho da roça. Na saída do infinito, tropecei na partícula indivisível da matéria. Infinitamente pequena. Infinitamente dolorida.

Xinguei e andei até chegar em casa, na hora em que havia saído.