domingo, outubro 15, 2006

Sala Cheia

Aqueles risos. Ecoavam por toda parte. Aquelas cores. Aquelas pessoas vazias, aquelas palavras destituídas de sentido, destituídas de tudo. Aquelas palavras desperdiçadas e perdidas no som alto da música que ribombava nos ouvidos dele.


Aqueles corpos dançantes, semi-automáticos, maquinais. Aqueles corpor unidos, grudados, separados por uma infindável distância. Ele, sentado, era apenas um observador. Um observador daqueles porta-almas mal preenchidos, daquela massa homogênea, daquela substância única, formada por diferentes pessoas iguais. O som, sempre alto, as luzes epilepticamente piscando, ele, em silêncio, gritava por socorro.

O tempo passava. A sala cheia, entupida, estourando, era vazia. Vazia de sons, vazia de visão. Intátil e inodora. Asséptica. Devidamente esterelizada.
O ambiente era louco. Pulsante de algo estranho, mas não de vida. Não para ele.

Porque ela demorava a chegar. Provavelmente não chegaria. Depois de tudo, não chegaria. Depois de tudo...

Por que ele pensava?

Por que aquele sorriso não ia embora, de jeito nenhum? Depois de tanto tempo, por que aquela sensação continuava a martelar-lhe as entranhas? E esmagá-las, e picotá-las, e, depois, abraçá-las, antes de recomeçar tudo.
Por que aqueles sons gritavam, por que aqueles corpos se misturavam? Mas não ele. Não o dele.

Todos sorriam. Não ele. Não ele, porque ele não conseguia. Porque era impossível daquele jeito. Porque não dava. Porque ele não queria tentar. Porque não conseguiria. Porque não podia dançar.
Merda.

Por que aquela imagem? Por que aquele rosto sorria dentro da sua cabeça?
E, cada vez que ela sorria (no seu pensamento), ele se afogava e se perdia. E, depois de não mais que um milisegundo, acordava fitando o vazio. Ou o cheio.
E quando a encontrava, perdia-se em seu toque, em seu olhar, em sua visão. E queria tê-la, por toda eternidade, por mais finita que ele sabia que esta poderia ser.

Vazio.
Cheio.
Pessoas.
Ela não viria, de qualquer forma.
Era melhor ir tomar alguma coisa.



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Mrs. Maciel, usei o título do seu último texto como inspiração para este aqui. Espero que gostem!


2 comentários:

Maurício disse...

me lembra de alguém(não me pergunte quem, você o conhece)... e você tem que parar de escrever contos, assim eu fico desempregado.

Srta. Maciel disse...

olha que legal, o Caio se inspirou no meu título pra escrever a prosa dele!
gostei muito, principalmente do milisegundo e de como me fez lembrar de uma pessoa.
e o palavrão foi, de fato, fundamental.